sábado, 31 de janeiro de 2015

A história de um projeto 2

Voltamos ao tema de uma postagem anterior em função das dificuldades encontradas por muitos novos pesquisadores em seguir o caminho da pesquisa científica.
Novos pesquisadores costumam cometer alguns erros por ingenuidade, por ainda se encontrarem inciando o caminhar nessa tarefa. Não que os antigos pesquisadores não cometam erros, cometemos muitos, mas erros são uma grande forma de aprendizado e, portanto devem ser compartilhados. Vamos comentar alguns desses erros.
SIGA O CAMINHO INDICADO POR SEU ORIENTADOR: É pratica constante para os novos pesquisadores na ânsia de buscar o melhor caminho consultar várias pessoas, contando suas ideais. O resultado é que cada um vai indicando um caminho diferente, denegrindo sua escolha, impondo dificuldades a serem alcançadas, que muitas vezes levam esses novos pesquisadores a desistirem da ideia. Seja qual for a dificuldade, seja qual for a dúvida, seu orientador é a pessoa certa para você conversar. Siga a orientação deste, não desperdice tempo consultando outras pessoas que não estão interessadas em colaborar e sim em dificultar.
O SEGREDO É A ALMA DO NEGÓCIO: Certa vez me contaram um fato lamentável. Uma professora, em busca de seu doutorado expôs a um pesquisador suas ideias de pesquisa. O pesquisador pediu que ela lhe passasse por escrito tudo o que tinha pensado, sendo prontamente atendido. Alguns dias depois enviou uma resposta dizendo que não ia dar certo, que o caminho não era esse. Como a professora tinha certeza do que queria, continuou pesquisando o assunto, e qual não foi a surpresa ao ver um projeto aprovado em uma agência de fomento à pesquisa muito parecido com o que queria fazer. Quando foi buscar o nome do pesquisador para entrar e contato, surpresa! Era o mesmo que a havia desencorajado a seguir seus estudos.
DE UM PASSO DO TAMANHO DE SUAS PERNAS: Em várias oportunidades tive a tarefa de avaliar projetos de pesquisa e em muitas vezes me defrontei com uma quantidade tão grande de objetivos específicos que tinha certeza que o pesquisador não ia conseguir atingi-los por absoluta falta de tempo. Cada objetivo requer uma metodologia, cada metodologia requer uma técnica e esta uma forma de analisar os dados. Algumas vezes uma mesma metodologia ou uma mesma técnica pode ser usada para dois ou três objetivos, mas no geral não, isso faz com que o trabalho seja dobrado ou triplicado. Pense nos objetivos que realmenete você pode alcançar e que são realmente importantes para seu estudo.
SÓ BUSQUE AQUILO QUE SEJA DE INTERESSE PARA SEUS RESULTADOS: Um outro ponto diz respeito ao protocolo de pesquisa. Este deve ser construido apenas abordando as variáveis que estamos buscando. Já vi projetos que continham em seu protocolo diversas variáveis que não constavam nem nos objetivos nem na metodologia, ou seja, ia ser coletado dados que não seriam utilizados em nenhum momento. Por exemplo, o projeto era com pacientes DPOC e o pesquisador buscava dados sobre estado civil, número de filhos, renda familiar, tipo de moradia. No entanto não tinha  dentre os objetivos traçar o perfil epidemiológico da amostra, nem na metodologia mostrava o que seria feito com esses dados. Temos que lembrar que protocolo de pesquisa é diferente de ficha de avaliação. No protocolo deve constar apenas as variáveis que serão utilizadas.
Um bom livro de pesquisa pode lhe ajudar a sanar suas dúvidas. Não deixe de consultá-los. 

Motocicletas e acidentes em crianças

Traumas decorrentes de acidentes motociclisticos tem se tornado frequentes e são uma importante causa de morbi-mortalidade em crianças no mundo todo, principalmente em países subdesenvolvidos, contribuindo para importantes sequelados funcionais e sociais para a criança e família levando a custos altos para o Estado. Nesse sentido, foi realizado uma pesquisa pela Residente Multiprofissional Juliana Amaral em um Hospital de Urgência e Emergência no estado do Pará, buscando traçar o perfil clínico e epidemiológico de crianças internadas vítimas de acidente de moto no período de 2010-2013 no Hospital Metropolitano de Urgência e Emergência através de busca de prontuários no DAME do referido hospital, sendo encontrado 316 prontuários de crianças envolvendo motos no período que representaram 66,95% dos traumas em crianças atendidas no período. Destes, 51,89% das crianças (164) eram pedestres, 44,62% estavam na motocicleta como condutores ou passageiros (141) e 3,48% eram ciclistas (11).
Houve uma predominância de crianças do sexo masculino (62,66%) e as idades que mais foram acometidas foram 14 anos (11,39%), 2 anos (10,76%) e 4 anos (9,81%), não havendo predomínio para um mês do ano especificamente.
Observou-se que ao longo dos anos, ocorreu um decréscimo no número de acidentes porém aumentando significativamente em 2013 (2010: 94 acidentes, 2011: 57 acidentes, 2012: 47 acidentes e 2013: 118 acidentes).
Como o hospital recebe muitos pacientes de outras regiões do estado, foi detectado que 69,31% das crianças eram do interior do estado, que vieram para Belém em busca de tratamento especializado.
A cabeça e membros inferiores foram as estruturas lesadas, provocando TCE e fraturas. 30,69% das crianças tiveram algum tipo de complicação, a maior parte relacionada ao sistema respiratório. 21,2% necessitaram de internação em UTI e 12,07% de ventilação mecânica.
Uma coisa que chamou atenção é que pouco mais de 25% das crianças internadas precisaram de suporte fisioterapêutico e que o tempo médio de internação foi de 9,74 dias e apenas 2,85% evoluíram a óbito.
O tempo de decorrido entre o acidente e o atendimento inicial pode ter contribuído para o percentual de complicações, uma vez que as distâncias do interior do estado até a capital são grandes e muitas vezes a viagem é feita de barco, sendo muito demoradas.
É importante destacar que em muitos casos a fisioterapia só é chamada depois que as complicações estão instaladas, e que se fosse acionada precocemente, poderia contribuir para sua não instalação.
Campanhas educativas e fiscalização devem ser feitas pelos órgãos competentes para diminuir esses acidentes principalmente para a população do interior do estado.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A história de um projeto ...

Com esse título encontrei a algum tempo atrás, três textos da colega Denise Ricieri, para os alunos da disciplina Metodologia da Pesquisa refletirem sobre o processo de construção de um projeto.
Nele Denise fazia uma abordagem com três histórias infantis entre as quais os Três Porquinhos, fábula inglesa do século XVIII resgatada e transformada em livro pelo escritor Joseph Jacobs e depois em filme por Walt Disney. Denise questiona como teria sido o desfecho da história caso o Lobo Mau tivesse planejado a caça aos porquinhos e nos leva a refletir sobre qual era o problema do Lobo Mau, o objetivo dele ao caçar os porquinhos e que metodologia ele usou.

Fonte: http://videosinfantis.pt/wp-content/uploads/2013/12/porquinhos.jpg

Ao solicitar que os alunos lessem o texto e comentassem, qual não foi minha surpresa ao constatar que nenhum deles conhecia a história dos Três Porquinhos, que tanto eu tinha ouvido na minha infância, tendo então eu que solicitar que eles pesquisassem primeiro a história.
Em um segundo momento pedi que eles pensassem em uma outra história infantil e que dessem um pensamento cientifico a história, procurando o problema, o objetivo, a metodologia que foi usada pelo personagem principalmente o desfecho. Minha surpresa maior foi ver que apesar deles conhecerem as histórias (Rei Leão, Enrolados etc) tiveram dificuldade para extrair esses dados.
No caso dos Três Porquinhos caso o Lobo Mau tivesse pensado críticamente ao invés de agir por impulso, poderia antes tentar descobrir qual o melhor método para derrubar a casa dos porquinhos e saciar a sua fome. Faria uma pilotagem primeiro com diversos tipos de material de construção e veria que o sopro não derrubaria a casa de cimento.
Se usasse o pensamento crítico poderia imaginar a possibilidade do primeiro porquinho correr até a casa do irmão e depois os dois juntos correrem para casa do terceiro irmão e imaginado uma forma de não permitir o porquinho correr, bloqueando o caminho por exemplo.
Teria visto sua capacidade cardiorrespiratória antes de soprar-correr atrás do porquinho-soprar-correr atrás dos dois porquinhos-soprar novamente. Isso nos leva a pensar como pesquisador, será que o Lobo Mau não conseguiu derrubar a casa de alvenaria porque já estava cansado depois de dois sopros e duas corridas?
Poderia ter antevisto as limitações do planejado, inclusive sua queda dentro de uma panela cheia de água quente (risco para o pesquisador).
O resultado poderia ser medido de duas formas:
1) A pressão expiratória máxima exercida pelo Lobo Mau; O Pico de Fluxo Expiratório do Lobo Mau; Capacidade Cardiorespiratória do Lobo Mau; Velocidade do primeiro porquinho no primeiro tiro de velocidade até a casa do irmão; Velocidade dos dois porquinhos até a casa do terceiro irmão; Velocidade do Lobo Mau nos dois momentos; Sensação subjetiva de dispneia pela Escala de Borg dos porquinhos e do Lobo Mau; Temperatura ideal da água para queimar o Lobo Mau.
2) História de vida dos porquinhos; História de vida do Lobo Mau; Percepção dos porquinhos que tiveram a casa destruída pelo sopro do Lobo Mau; Percepção dos porquinhos ao ver a casa de alvenaria não destruída pelo sopro; Percepção do Lobo Mau ao não conseguir destruir a casa com o sopro.
Fazer pesquisa é isso. Pensar, imaginar, ter ideias, testar, avaliar, reconstruir caminhos, por a prova, avaliar novamente, discutir os resultados, e levar aos outros o que você fez e no que deu. Sem medo de críticas. Sem medo de dar errado. 
Precisamos solidificar a fisioterapia enquanto ciência. Questionarmos a nós mesmos. Por a prova nossos métodos de forma cientificamente correta. 
No entanto, em todas as oportunidades que fui chamado a lecionar a disciplina Metodologia da Pesquisa, quer seja em Especializações, Residência Multiprofissional ou mesmo no Mestrado, sinto que para os alunos fazer pesquisa é algo ainda não incorporado no dia-a-dia. É algo extraordinário que fazem por obrigação, para elaborar um trabalho e conseguir aprovação final no curso.
Costumo parodiar o poeta dizendo: Pesquisar é preciso, viver não é preciso.
Fazemos pesquisa desde que nascemos. Aprendemos a andar pesquisando sobre o modo de andar sem nos darmos conta, testando nossas possibilidades, erramos algumas vezes, mas acertando no final.
Convido a cada um de voces a fazerem esse exercício: pensarem em uma historia infantil e buscar a ciência por trás dela.